CENAS

 

CENAS do Primeiro Ato

CENA I ABERTURA

CENA II- A Corte se diverte. Personagens caricaturas evoluem numa dança decadente. O médico é amparado em seu leito de morte e passa seu diploma ao filho Frederico que rejeita a função e despreza esse mundo.

Surge um cavalo, os dois desmoronam essa sociedade e fogem.

Beatriz, (Agnes) a equilibrista, corta o caminho de Frederico ...

OPERETA DA CORTE

(Imperador, Imperatriz, Amante do Imperador, o médico, o cavalo, o filho do médico, outros personagens)

Consta que houve algures e antanho

Noutra rosa dos ventos

Um ilustre doutor

Que dosava as ervas do banho

E preparava os unguentos

Para o Imperador

Ministrava a exata mezinha

Para cada mazela

Das donzelas de honor

E linda embalsamava a Rainha

Conservando-a mais bela

Para seu amo e senhor


Foi quiçá como recompensa

Por missões tão devotas

Que o egrégio doutor

Contraiu ignota doença

Que se inchavam as pelotas

E ululava de dor

Para desconforto da Corte

Desprendia um aroma

Bem desanimador

E afinal no catre de morte

Transferiu seu diploma

Para o filho e sucessor

Filho meu,

Filho meu, sê leal

Como o fui até o final

Desta longa vigília

Guarda bem, filho meu

Com saúde

A Família Imperial

Gente, que rapaz diferente

Quando olhava um doente

Desandava a cuspir

Quase não podia ver sangue

Se vestia de gaze

E não parava de rir

Dava cambalhota em palácio

Se falou que provava

Dum estranho elixir

Fato é que roubou um cavalo

E num galope insensato

Foi-se embora por aí

Por aí... Por aí...


CENA III- A cena é invadida pela família dos equilibristas, transportados num grande carroção, imagem lírica de um mundo novo, para os olhos maravilhados de Frederico.

Essas personagens puras, portadoras de toda a arte, não só do circo, executam uma dança de seu cotidiano.

BEATRIZ - Instrumental

(Beatriz, Mãe, Pai, Outros filhos)


CENA IV - Beatriz apaixona-se por Frederico e esta figura da côrte encontra no mundo do circo a satisfação de todos os seus anseios.

O dueto de amor tem como pano de fundo o cotidiano da família, como a nos lembrar que o amor no circo não estará nunca sozinho, mas sempre acompanhado de um trabalho penoso e disciplinado.

Ao final do dueto nasce Charlotte.

BEATRIZ (Canção com Milton Nascimento)

(Beatriz , Frederico )

BEATRIZ

Olha

Será que ela é moça

Será que ela é triste

Será que é o contrário

Será que é pintura

O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu

Se ela acredita que é outro pais

E se ela só decora o seu papel

E se pudesse entrar na sua vida

Olha

Será que é de louça

Será que é de éter

Será que é loucura

Será que é cenário

A casa da atriz

Se ela mora num arranha-céu

E se as paredes são feitas de giz

E se ela chora num quarto de hotel

E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre, Beatriz

Me ensina a não andar com os pés no chão

Para sempre é sempre um triz

Aí, diz quantos desastres tem na minha mão

Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha

Será que é uma estrela

Será que é mentira

Será que é comédia

Será que é divina

A vida da atriz

Se ela um dia despencar do céu

E se os pagantes exigirem bis

E se um arcanjo passar o chapéu

E se eu pudesse entrar na sua vida.


CENA V - Todos se unem para a inauguração e a abertura do circo. Frederico e Beatriz apresentam a filha Charlotte, a nova estrela do recém formado Circo Knieps. Ao final todos se retiram recolhendo suas coisas, já desmontando suas roupas. É o final do espetáculo. O cansaço. A vida real …

ABERTURA DO CIRCO  (Instrumental)

( Frederico, Beatriz, Charlotte-a filha, outros personagens)


CENA VI - Os palhaços realizam uma pantomina burlesca sobre o amor para Charlotte-adolescente. Também um Pierrot-adolescente procura o amor protegido pelo pai-Pierrot.

No final da pantomima o travesti, a mulher-linda se transforma na mulher macaca para desespero do palhaço gordo e os cinco intérpretes acabam o número circense com uma paródia da marcha nupcial.

PANTOMIMA (Instrumental)

( Palhaço Magro, Palhaço Gordo, Garçom, Violinista, Mulher Linda & Macaca, 2 Pierrot)


CENA VII - Charlotte suspira por um apaixonado. Surge o Pierrot Filho, amparado pelo Pai Pierrot. Os três realizam uma dança ingênua de buscas e receios…É uma amor infantil e puro, com a descoberta final do sexo.

VALSA DOS CLOWNS ( canção com Jane Duboc)

(Charlotte-filha de Beatriz e Frederico, Pierrot, Pai Pierrot)

VALSA DOS CLOWNS

Em toda canção

O palhaço é um charlatão

Esparrama tanta gargalhada

Da boca pra fora

Dizem que seu coração pintado

Toda tarde de domingo chora

Abra o coração

Do palhaço da canção

Eis que salta outro farrapo humano

E morre na coxia

Dentro de seu coração de pano

Um palhaço alegre se anuncia

A nova atração

Tem um jovem coração

Que apertado por estreito laço

Amanhece partido

Dentro dele sai mais um palhaço

Que é um palhaço com o olhar caído

E esse charlatão

Vai cantar sua canção

Que comove toda a arquibancada

Com tanta agonia

Dentro dele um coração folgado

Cantarola uma outra melodia


CENA VIII- Surgem grupos de convidados para o casamento. Os pais preparam Charlotte e Pierrot. A alegria da paródia do enlace predomina.

Logo nasce Otto, que não se identificará com nenhum personagem do Circo, pois será ele que dará início à uma nova geração cultural, interessando-se por uma mulher fora do ambiente circense.

OPERETA DO CASAMENTO - Coral

( Charlotte, Pierrot, Frederico, Beatriz, Otto Frederic-filho de Charlotte e Pierrot, outros personagens)

Nem assaz alhures e antanho

Era um evento tamanho

A sagração nupcial

Vinha a noiva de gargantilha

Caçoleta e rendilha

Diadema e torçal

Mas se houvesse algum embaraço

Dera a moça um mau passo

Quanto horror e desdém

Ela ia parar no convento

Ia dormir ao relento

Ou deitar nos trilhos do trem

Do pudor da noiva a bandeira

Após a noite primeira

Desfraldava-se ao sol

A sua virtude escarlate

Igual brasão de tomate

Enobrecendo o lençol

Mas se não houvesse tal mancha

É que outra mancha mais ancha

Se ocultava por trás

E rapaz pagava o malogro

Com a vendeta do sogro

Ou a malícia dos mortais

Oh meu pai

Oh meu pai, por favor

Condenai o nosso amor

De langor e luxúria

Mas poupai, oh meu pai

Nosso filho

Da fúria do Senhor


O guri nasceu apressado

Nem um mês de casado

Tinha quem o gerou

Quando o pai caiu nos infernos

Foi nos braços maternos

Que ele se pendurou

Quando a mãe caiu na sarjeta

Foi seguindo a opereta

Na garupa do avô

Quando o avô caiu do cavalo

Foi chorar no intervalo

E mais um ato começou


Palhaço, corista

Trapézio, dançarina

Maestro, cortina

É fé na flauta e pé na pista


CENA IX- As personagens do Circo se encaminham para o carroção e se preparam a fim de partir para a estrada e encontrar outra cidade…

Otto não quer seguir o circo. O carroção cruza com o carro-cabaret. Todos observam. É o encontro de duas linguagens de espetáculo, duas culturas.

PASSAGEM DO BURRO- CIRCO   (Instrumental j

(Otto Frederic, Os Pais, Outros Personagens)


CENA X - O palco é violentado por essa onda de erotismo. A pureza do Circo o amor poético dão lugar ao amor paixão, ao amor sexo. Otto, apesar de se sentir fora de seu ambiente brinca com essas novas figuras e apaixona-se por Lily a vedete do cabaret.

DANÇA DE LILY BROWN  (Instrumental)

( Lily, As irmãs de Lily, Otto Frederic, outros personagens)


CENA XI- Ao final do show, da mesma forma que no circo, o cansaço, a troca de roupa, o cotidiano. Lily explora a ingenuidade de Otto e pateticamente desfaz a imagem de coquete e da super vedete que ela é no palco do show para se mostrar mulher sensual.

INTERMEZZO PARA LILY BROWN (Instrumental)

( Lily, Otto Frederic)

CENA XII- Otto e Lily se praparam para o sexo. Dançam o amor paixão  feito de buscas  e rejeições. Lily já não se satisfaz com a imagem de Otto que aos poucos se tornou prepotente. Os dois mundos já não se complementam mais.


A HISTÓRIA DE LILY BROWN

( Canção por Gal Costa)

Como num romance

O homem dos meus sonhos

Me apareceu no dancing

Era mais um

Só que num relance

Os meus olhos me chuparam

Feito um zoom

Ele me comia

Com aqueles olhos

De comer fotografia

Eu disse cheese

E de close em close

Fui perdendo a pose

E até sorri, feliz

E voltou

Me ofereceu um drinque

Me chamou de anjo azul

Minha visão

Foi desde então

Ficando flou

Como no cinema

Me mandava às vezes

Uma rosa e um poema

Foco de luz

Eu, feito uma gema

Me desmilingüindo toda

Ao som do blues

Abusou do scotch

Disse que meu corpo

Era só dele aquela noite

Eu disse please

Xale no decote

Disparei com as faces

Rubras e febris

E voltou

No derradeiro Show

Com dez poemas e um buquê

Eu disse adeus

vou com os meus

Numa turnê

Como amar esposa

Disse ele que agora

me amava como esposa

Não como star

Me amassou as rosas

Me queimou as fotos

Me beijou no altar

Nunca mais romance

Nunca mais cinema

Nunca mais drinque no dancing

Nunca mais cheese

Nunca uma espelunca

Uma rosa nunca

Nunca mais feliz

CENA XIII É preciso criar uma nova vida, uma nova arte. Lily se lança a essa nova aventura. Do sonho para o pesadelo, para a auto dilaceração. Para quem sabe uma nova purificação. Lily entrega-se ao sadismo do tatuador, para que lhe imprima no ventre uma imagem sagrada. Em seu delírio, misto de masoquismo e santidade percebe figuras de freiras negras e santas que vagam no espaço. Também um grupo de “voyeurs” vem juntar-se a essa paixão e morte. Otto assiste a tudo impotente e assustado com o poder de entrega de Lily. Une-se a ela por um momento. É desse universo que nasce Margareth .

CONVERSÃO DE LILY BROWN  (Instrumental)

(Lily, Otto Frederic, Margareth (Filha de Otto e Lily, o Tatuador, Freiras Negras e Voyers)


CENAS DO SEGUNDO ATO


CENA XIV - Margareth está tomada por uma crise de misticismo e tem um encontro com uma procissão de freiras brancas. O circo, Na figura do palhaço tenta atraí-Ia por todos os meios, sem resultado.

OREMUS - Coral

(Margareth, O Iluminado, Os Anjos Brancos, Palhaço com Rosa, Freiras Brancas)


CENA XV - Em sua alucinação Margareth declara o seu amor por Cristo e se deixa envolver por figuras de anjos brancos que a acompanharão a vida toda.

MEU NAMORADO (Canção por Simone)

(Margareth, O Iluminado, Os Anjos Brancos)

MEU NAMORADO

Ele, vai me possuindo

Não me possuindo

Num canto qualquer

É como as águas fluindo

Fluindo até o fim

É bem assim que ele me quer

Meu namorado

Meu namorado

Minha morada é onde for morar você

Ele vai me iluminando

Não iluminando

Um atalho sequer

Sei que ele vai me guiando

Guiando de mansinho

Pro caminho que eu quiser

Meu namorado

Meu namorado

Minha morada é onde for morar você

Vejo meu bem com os seus olhos

E é com meus olhos que o meu bem me vê


CENA XVI – As sombras desaparecem e na sua solidão irrompe o palhaço que a atrai e lhe apresenta o tatuador.

Ao contrário das figuras religiosas ela agora se mistura com o que há de mais real, as figuras do povo .

O tatuador acaba por lhe imprimir na carne todo o seu amor a Deus.

Pode então dar prosseguimento ao circo, ao novo circo que tem sua marca de misticismo.

O Tatuador (Instrumental)

(Margareth,O Tatuador, Outros Personagens)


CENA XVII - Margareth encontra Ludwig o astro dos trapezistas. Agora ela adquire um novo poder, além do chicote, o das imagens sagradas em seu corpo tatuado que faz com que as feras se amansem.

MARGARETH ENTRE AS FERAS (Instrumental)

(Margareth, Ludwig, As feras)

CENA XVIII- Como líder do circo, Margareth apresenta o número dos trapezistas liderados por Ludwig.

LUDWIG E OS TRAPEZISTAS (Instrumental)

(Ludwig, Margareth, Os Trapezistas)


CENA XIX - Margareth se apaixona por Ludwig e casa com ele. Num dueto de amor Margareth, sempre acompanhada pelo seu anjo da guarda, assiste à gradual agonia e morte do seu amado que morre por não poder satisfazer o seu desejo, já que as imagens sagradas o tornam impotente.

SOBRE TODAS AS COISAS (Canção por Gilberto Gil)

(Margareth, Ludwig, O Anjo Branco, Outros Personagens)

SOBRE TODAS AS COISAS

Pelo amor de Deus

Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem

Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém

Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor

Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor

Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor

Criado pra adorar o Criador

Inventou a criatura por favor

Se do barro fez alguém com tanto amor

Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor

Não há de ter lançado em movimento terra e céu

Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel

Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o deus

Que criou nosso desejo é tão cruel

Mostra os vales onde jorra o leite e o mel

E esses vales são de Deus

Pelo amor de Deus

Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem

Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém

Abandonado pelo amor de Deus



CENA XX-  Margareth introduz o número dos homens-fera.

RUDOLF E O HOMEM-FERA (Instrumental)

(Rudolf, Homens-Fera)

A BELA E A FERA

Houve a declaração, oh bela

De um sonhador titã

Um que dá nó em paralela

E almoça rolimã

O homem mais forte do planeta

Tórax de Superman

Tórax de Superman

E coração de poeta

Não brilharia a estrela, oh bela

Sem noite por detrás

Tua beleza de gazela

Sob o meu corpo é mais

Uma centelha num graveto

Queima canaviais

Queima canaviais

Quase que eu fiz um soneto

Mais que na lua ou no cometa

Ou na constelação

O sangue impresso na gazeta

Tem mais inspiração

No bucho do analfabeto

Letras de macarrão

Letras de macarrão

Fazem poema concreto

Oh bela, gera a primavera

Aciona o teu condão

Oh bela, faz da besta-fera

Um príncipe cristão

Recebe o teu poeta, oh bela

Abre teu coração

Abre teu coração

Ou eu arrombo a janela.


CENA XXII- Alucinada por esse misto de sexo e Deus, Margareth dá a luz, sozinha, as gêmeas Marie e Helene.

PASSAGEM DE MARGARETH GRÁVIDA ( Instrumental)

( Margareth, Marie, Helene ( filhas de Margareth), outros personagens)



CENA XXIII- Marie e Helene, a purificação final da dinastia, transcende a própria arte do circo e se tornam personagens santas, santidade que é a própria essência do artista. Elas se embalam, envoltas por mães e pais vindos do povo, como a que lembrar-lhes a vida real. Que elas só existem porque eles existem. É o povo que dá a vida ao artista.

O CIRCO MÍSTICO (Canção por Zizi Possi)

( Marie, Helene, Os Pais e as Mães)

O CIRCO MÍSTICO

Não sei se é um truque banal

Se um invisível cordão

Sustenta a vida real

Cordas de uma orquestra

Sombras de um artista

Palcos de um planeta

E as dançarinas no grande final

Chove tanta flor

Que, sem refletir

Um ardoroso espectador

Vira colibri

Qual

Não sei se é nova ilusão

Se após o salto mortal

Existe outra encarnação

Membros de um elenco

Malas de um destino

Partes de uma orquestra

Duas meninas no imenso vagão

Negro refletor

Flores de organdi

E o grito do homem voador

Ao cair em si

Não sei se é vida real

Um invisível cordão

Após o salto mortal



CENA XXIV - Atraídos por essas figuras iluminadas surgem os banqueiros. Grupo ameaçador, imagem do poder, elemento repressor e antropofágico do artista-povo. Tentam possuí-Ias e seduzi-Ias para seu mundo.

DANÇA DOS BANQUEIROS (Instrumental)

(Marie, Helene , Os banqueiros)


CENA XXV - Eles são afugentados pela inocência das crianças, do povo, o público mais puro e fiel do circo. É o encontro artista-criança, elementos essenciais para a realização-mágica do espetáculo.

CIRANDA DA BAILARINA ( Coral de Crianças)

(Marie, Helene, As crianças)


Procurando bem

Todo mundo tem pereba

Marca de bexiga ou vacina

E tem piriri, tem lombriga, tem ameba

Só a bailarina que não tem

E não tem coceira

Berruga nem frieira

Nem falta de maneira

Ela não tem

Futucando bem

Todo mundo tem piolho

Ou tem cheiro de creolina

Todo mundo tem um irmão meio zarolho

Só a bailarina que não tem

Nem unha encardida

Nem dente com comida

Nem casca de ferida

Ela não tem

Não livra ninguém

Todo mundo tem remela

Quando acorda às seis da matina

Teve escarlatina ou tem febre amarela

Só a bailarina que não tem

Medo de subir, gente

Medo de cair, gente

Medo de vertigem

Quem não tem

Confessando bem

Todo mundo faz pecado

Logo assim que a missa termina

Todo mundo tem um primeiro namorado

Só a bailarina que não tem

Sujo atrás da orelha

Bigode de groselha

Calcinha um pouco velha

Ela não tem

O padre também

Pode até ficar vermelho

Se o vento levanta a batina

Reparando bem, todo mundo tem pentelho

Só a bailarina que não tem

Sala sem mobília

Goteira  na vasilha

Problema na família

Quem não tem

Procurando bem

Todo mundo tem…


CENA XXVI- Na união máxima de todas essas essências acontece a levitação. Marie e Helene apresentam seus poderes santificados, flutuando no ar sem mais truques circenses mas com o poder do artista santo.

(§) Na levitação são utilizadas as figures tradicionais de preto do Teatro Japonês e do Teatro Negro de Praga, nos quais se estabelecem um código de que essas figuras são invisíveis.

LEVITAÇÃO DE MARIE E HELENE (Instrumental)



CENA XXVII- Além da vida e da morte, no mundo da arte, surgem as personagens que geraram estas gêmeas. É como se cada um quisesse transmitir-lhes e a nós também seus ensinamentos, suas dúvidas, sua imortalidade.

A idéia do eterno caminhar lado a lado do artista-povo, explode na canção final, numa imagem que se renova através das gerações, num contínuo chegar e partir para estradas, deixando sempre atrás de si nesse grande circo da vida, a imagem da Arte.

NA CARREIRA  (Canção de Chico Buarque e Edu Lobo)

(Toda a Companhia)

NA CARREIRA

Pintar, vestir

Virar uma aguardente

Para a próxima função

Rezar, cuspir

Surgir repentinamente

Na frente do telão

Mais um dia, mais uma cidade

Pra se apaixonar

Querer casar

Pedir a mão

Saltar, sair

Partir pé ante pé

Antes do povo despertar

Pular, zunir

Como um furtivo amante

Antes do dia clarear

As pistas de que um dia

Ali já foi feliz

Criar raiz

E se arrancar

Hora de ir embora

Quando o corpo quer ficar

Toda alma de artista quer partir

Arte de deixar algum lugar

Quando não se tem pra onde ir

Chegar, sorrir

Mentir feito um mascate

Quando desce na estação

Parar, ouvir

Sentir que tatibitate

Que bate o coração

Mais um dia, mais uma cidade

Para enlouquecer

O bem-querer

O turbilhão

Bocas, quantas bocas

A cidade vai abrir

Pr’uma alma de artista se entregar

Palmas pro artista confundir

Pernas pro artista tropeçar

Voar, fugir

Como o rei dos ciganos

Quando junta os cobres seus

Chorar, ganir

Como o mais pobre dos pobres

Dos pobres dos plebeus

Ir deixando a pele em cada palco

E não olhar pra trás

E nem jamais

Jamais dizer

Adeus